Algumas palavras sobre a autora

Apresentação do cuidado na crise

Eu sou alguém que, ao longo de sua vida, nunca havia experimentado a loucura. Embora eu admire profundamente aqueles que dedicaram suas vidas desde cedo ao cuidado da saúde mental, sinto-me grata por ter sido escolhida pela própria saúde mental. Essa experiência tem me ensinado a melhorar a comunicação, a prestar atenção e compreender o que as pessoas realmente dizem, a desenvolver resiliência e, mais importante, a perceber e refletir constantemente sobre as desigualdades presentes em nossa sociedade. Trabalhando na área de saúde mental, aprendi a valorizar o diálogo como uma ferramenta essencial de cuidado e a importância das perspectivas e experiências das pessoas que enfrentam o sofrimento mental.

Posso afirmar com convicção que sou uma pessoa melhor hoje do que no passado. Como escuta em um local de saúde mental, muitas vezes isolado e solitário, tive a oportunidade de ouvir muitas histórias de sofrimento que me tocaram profundamente. Desde setembro de 2013, sou docente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso e membro do Núcleo de Estudos em Saúde Mental de Mato Grosso.

A partir de 2006, quando comecei minha carreira como pesquisadora por meio da iniciação científica, tive a oportunidade de conhecer autores e discutir questões da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica no Brasil e no mundo.

Ao longo dos anos na docência oriento e orientei trabalhos de conclusão de cursos sobre cuidado à pessoa e família em sofrimento mental, Rede de Atenção Psicossocial e formação de profissionais em saúde mental. Como docente de Enfermagem, tenho testemunhado o uso excessivo de medicamentos como a única forma de tratamento para pessoas em sofrimento mental e a dificuldade dos profissionais em lidar com situações de crise. Isso me levou a investigar a temática de uma forma mais aprofundada. Em minha tese de doutorado pude analisar o processo de atenção à crise psicótica em serviços de saúde da Rede de Atenção Psicossocial e compreender de forma aprofundada os desafios para o atendimento à pessoa em crise.

A crise em saúde mental, apresenta incertezas, desafios e dúvidas tanto para profissionais quanto para a família, muitas vezes associada a uma percepção de periculosidade. No entanto, acredito que a pessoa não é definida exclusivamente por seu sofrimento/doença/transtorno e nem todas as suas ações podem ser atribuídas a ela. Por muito tempo me perguntei se seria possível desenvolver práticas antimanicomiais no atendimento a pessoas em crise, sem perpetuar a medicalização, hoje já sei que SIM, isso é possível.

É por isso, que surge o site de Cuidado à crise, com o objetivo de falarmos sobre essas situações desafiadoras para a família e a pessoa que sofre e apresentarmos maneiras inovadoras de cuidado. Sejam todas e todos bem-vindas e bem-vindos!